Festa de Familia

Na década de 90, um grupo de cineastas dinamarqueses lançou o movimento Dogma, que exaltava uma maneira de fazer cinema despojada de artifícios. O Dogma 95 pregava dez mandamentos básicos, como o uso de uma única locação, câmera na mão, proibição de luz artificial e trilha sonora que não faça parte da cena, dentre outros. Ou seja, o que se vê na tela deveria ser o mais próximo possível das condições da vida real. Hoje em dia, ninguém mais leva tal radicalismo a sério. Mas certamente um dos frutos mais consistentes da experiência é o longa Festa de Família, de Thomas Vinterberg. Adaptado para o teatro pelo dramaturgo David Eldridge, a peça ganha sua primeira montagem no Brasil pelas mãos do ator e diretor Bruce Gomlevsky.
A trama se passa durante a comemoração dos 60 anos do patriarca de uma família. Christian, o filho mais velho, resolve dar um basta em anos de silêncio e revelar à mesa, diante de toda a família, os abusos sofridos nas mãos do pai quando criança. Abusos esses que teriam sido o motivo pelo qual sua irmã gêmea se suicidara. Seriam verdadeiras suas acusações, ou apenas uma provocação de filho rebelde? E o restante da família, que sabe a respeito? E os outros dois irmãos, também foram molestados? A dubiedade perpassa os presentes, enquanto a refeição é servida em fina louça. O incesto não é o único pecado posto à mesa, também podemos entrever preconceito (social e racial), intolerância e outras perversidades consanguíneas.
Gomlevsky produz, dirige e interpreta o personagem Christian nesta montagem que ocupa o Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil. Ao entrar na sala (que é concebida para se adaptar à proposta cênica vigente), o público tem que tomar uma interessante decisão: sentar-se à mesa junto com os atores ou à volta desta. O fascinante cenário de Bel Lobo é composto por quatro mesas que formam um quadrado. Junto à parede, num patamar acima, são distribuídas cadeiras que formam um quadrado exterior. No espaço deixado no centro das mesas e nas laterais externas, pequenos palcos. As cenas acontecem à mesa e ocasionalmente em um desses outros espaços.
Sempre atraída pelo inusitado, é claro que escolhi um lugar à mesa. E recomendo a quem for assistir à peça que faça o mesmo. É incrível a perspectiva que temos do espetáculo quando visto do mesmo plano dos atores. Tal disposição nos transforma em participantes daquela festa desagradável. Não como alguém no núcleo central, é claro, mas talvez um primo distante que não sabe o que fazer diante da lavação de roupa suja de seus parentes. Uma testemunha constrangida de revelações estarrecedoras. À saída do teatro, uma senhora comentou comigo no elevador que, caso estivesse sentada ao lado do ator Bruce Gomlevsky no momento em que ele chora desconsolado, teria dado um abraço nele. Pena, desconforto, vergonha. Qualquer que seja a reação, apenas prova a força extra que a ótima cenografia dá ao texto, que já é denso e impactante por natureza. O elenco é bom e coeso, capitaneado com vigor e verdade por Gomlevsky, que dá colorido e dramaticidade aos alternados estados de espirito de Christian.
Assistir a Festa de Família… Aliás, assistir não é bem a palavra. Digamos que participar desse jantar é uma experiência singular. É preciso parabenizar Bruce Gomlevsky e a sua recém-criada Cia Teatro Esplendor pela iniciativa de trazer a nós essa trágica festa. A temporada vai até 2 de agosto.
Festa de Família (Festen), de David Eldridge. Direção: Bruce Gomlevsky. Com Bruce Gomlevsky, Julia Carrera, Risa Landau, Walney Costa, Carlos Veiga, Carolina Chalita, Gustavo Mello, Joelson Gusson, Julia Limp Lima, Leonardo Corajo, Otto Jr., Peter Boos, Ricardo Damasceno, Teresa Fournier. Teatro III – CCBB. Quarta a domingo, às 20h. Ingressos 10,00.

CRITICAS

Lionel Fischer

SEGUNDA-FEIRA, 15 DE JUNHO DE 2009
Teatro/CRÍTICA

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“Festa em família”
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Trágico ajuste de contas

Lionel Fischer

Ao contrário do que ocorre normalmente, a peça “Festa de família”, de David Eldrige, é uma adaptação do filme homônimo de Thomas Vinterberg, premiado com a Palma de Ouro em Cannes, em 1998. Ambientado na casa de campo do patriarca de uma abastada família dinamarquesa, o texto gira em torno da comemoração dos 60 anos do dito patriarca, que ali reúne parentes e amigos imaginando, certamente, que sua festa de aniversário transcorreria de forma tranquila e impregnada de felicidade. No entanto, a partir do momento em que vêm à tona revelações tão inesperadas quanto chocantes, o encontro se converte em uma espécie de trágico ajuste de contas.
Eis, em resumo, o enredo de “Festa de família”, em cartaz no Teatro III do CCBB. Bruce Gomlevski assina sua primeira direção teatral e também divide o palco com Julia Carrera, Walney Costa, Otto Jr., Risa Landau, Teresa Foumier, Joelson Gusson, Peter Boos, Christovam Netto, Carolina Chalita, Ricardo Damasceno, Leonardo Corajo, Carlos Veiga e Júlia Limp Lima. O presente espetáculo marca o início das atividades de Cia. de Repertório Teatro Esplendor.
Como não assistimimos ao filme, só podemos analisar a peça em si. E ela contém muitos méritos, sem dúvida, dentre eles o de abordar um tema atualíssimo, embora sempre escamoteado – o incesto – e propor um olhar crítico sobre as relações familiares, em geral marcadas pela hipocrisia, recurso que visa impedir que verdades indesejadas venham à tona. Afora isso, o autor cria personagens fortes e diferenciados, quase todos portadores de graves neuroses.
No entanto, acreditamos que o dramaturgo, depois de haver explicitado o tema principal, leva um tempo excessivo para materializar na cena seus desdobramentos e consequências, adiando em demasia as inadiáveis ações que se fariam necessárias após a inusitada revelação.
Quanto ao espetáculo, Bruce Gomlevski impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o texto, que nos parece exigir pausas prolongadas, silêncios constrangedores e eventuais momentos de violência. Cabe ainda registrar a ótima proposta de fazer com que os espectadores, de certa aneira, participem da cena, já que nas mesas do banquete existem lugares disponíveis para a platéia. Tal ideia nos parece bastante pertinente: não só aproximar os espectadores do contexto, mas também deixar implícito que a realidade da cena pode também refletir a realidade dos que assistem ao espetáculo.
Com relação ao numeroso elenco, todos os profissionais que estão em cena exibem performances seguras e convincentes, todos se entregando sem reservas e com total paixão aos complexos e doentios personagens que interpretam. Ainda assim, destacamos as atuações de Bruce Gomlevski (Christian, o que deflagra todos os conflitos), Julia Carrera (Helene, irmã de Christian), Otto Jr. (Michael, irmão de Christian e Helene), Walney Costa (Helge, o patriarca) e Joelson Gusson (Poul).
Na equipe técnica, Maneco Quinderé assina uma iluminação sóbria e expressiva, o mesmo ocorrendo com os figurinos de Flávio Souza. Bel Lobo responde por uma cenografia bastante criativa, com a única ressalva de um pequeno tablado que fica ao centro e torna um tanto confusas algumas cenas fora do banquete. Marcelo Alonso Neves cria uma trilha sonora eficiente, sendo de ótimo nível a tradução de José Almino.

FESTA DE FAMÍLIA – Texto de David Eldrige. Direção de Bruce Gomlevski. Com Bruce Golevski, Julia Carrera e outros. Teatro III do CCBB. Quarta a sexta, 20h. Sábado e domingo, 19h30

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