Amérika!

Comprar é mais americano que pensar.
Andy Warhol

Amérika! é o terceiro espetáculo da Trilogia da Matéria criada pelo grupo Dragão Voador Teatro Contemporâneo, com direção de Joelson Gusson. Trata-se de estudos estéticos sobre a materialidade e a finitude das coisas, do homem e do mundo. Seu título é uma alusão a esta cultura hegemônica e fagocitária que “globalizou” nosso agora pequeno mundo.

O espetáculo tem como base o artigo Elogio da Profanação, do filósofo Giorgio Agambem, em que este trata da sociedade de consumo, do descarte da matéria para a satisfação dos desejos e das supostas necessidades que a vida moderna nos impõe, através dos discursos prontos que vendem a ilusão de felicidade. Como cita Marcia Tiburi, “…A propaganda que vive do ritual de sacralização de bugigangas no lugar de relíquias onde o consumidor é o novo fiel. O consumismo (…) como a crença da igreja do capitalismo em que o novo material dos ídolos é o plástico”. Também nos serve de apoio, e contraponto, a Carta sobre a Felicidade de Epicuro, onde este disserta sobre o prazer do sábio, entendido como quietude da mente e o domínio sobre as emoções e, portanto, sobre si mesmo.

 

 

 

 

Em uma era de desperdício de materiais, como a que vivemos na atualidade, tudo parece ao alcance da mão. A ordem é a satisfação – afinal de contas, como dizem inúmeras propagandas: “…Você merece!” – sem levar em conta que até pouquíssimo tempo atrás o verbo “consumir” estava ligado ao ato de destruir, de acabar com alguma coisa de uma forma quase definitiva. Este termo foi alçado pelo capitalismo e a lei da mais valia, ao status de adjetivo com a conotação mais deificada que se pode supor. Hoje, não ser um consumidor está no mesmo patamar de ser um herege. Todos precisamos cultuar essa “religião do fazer desaparecer”, onde tudo se transforma em resíduo a um simples toque. Como um Midas inverso, temos o poder de des-sacralizar qualquer coisa em seu altar/vitrine. Afinal de contas quem é que lava um copo de plástico? Com um simples toque operamos o milagre de fazer com que este se transforma imediatamente em lixo.

Ficha Técnica

Argumento Original e Direção: Joelson Gusson
Criação: Carolina Ferman, Cris Larin, Dulce Penna de Miranda, Joelson Gusson, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa e Raquel Rocha
Dramaturgismo: Joelson Gusson
Em Cena: Carolina Ferman, Cris Larin, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa e Raquel Rocha*.
Paisagem Sonora: Siri
Luz: Paulinho Medeiros
Figurinos: Patricia Muniz
Cenografia: Joelson Gusson
Criação e Composição de Pra que serve um orangotango?: Vicente Coelho e Dulce Penna

 

 

 

 

CRITICAS

Lionel Fischer

Deliciosa crítica à alienação

Lionel Fischer

“O espetáculo apresenta uma sucessão de situações cotidianas em que uma lente de aumento é colocada sobre o absurdo do comportamento humano. O consumo de alimentos, ítens de higiene, cosméticos, bebidas, medicamentos e toda uma sorte de produtos cresce junto com a carência e a histeria dos personagens, chegando ao limite do surreal. Montanhas de lixo são produzidas ao longo das cenas, cercando o palco cada vez mais, até que se transformem num mar de lixo”.

Extraído do release que me foi enviado, o trecho acima sintetiza o contexto em que se dá “Amerika”, em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto. Inserida no projeto “Trilogia da matéria”, do qual fazem parte “Paisagem nua” e “Manifesto Ciborgue”, “Amerika” é uma criação do Grupo Dragão Voador Teatro, integrado por Carolina Ferman, Cris Larin, Dulce Penna de Miranda, Joelson Gusson, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa e Raquel Rocha. O presente espetáculo tem argumento original, dramaturgia e direção assinadas por Joelson Gusson, estando o elenco formado por Lucas Gouvêa, Leonardo Corajo, Raquel Rocha e Cris Larin.

Diante do exposto no parágrafo inicial, torna-se evidente que o grupo não pretende contar uma história linear, estruturada em moldes convencionais. O que parece estar em causa também não se atrela a supostos conflitos entre personagens, dos quais resultaria a ação dramática. Salvo engano de minha parte, acredito que o grupo pretendeu, fundamentalmente, criar uma montagem cujo tema central seria a alienação, expressa através do desvairado consumo de produtos em detrimento das relações humanas, supostamente tão deterioradas quanto os produtos que os personagens consomem e logo descartam.

Tendo sido esta a premissa fundamental, não há como negar que o grupo alcançou plenamente seus objetivos. A partir de um texto extremamente engraçado e de alto teor crítico, o diretor Joelson Gusson impõe à cena uma dinâmica refinada e expressiva, com deliciosas pitadas de absurdo, cabendo também ressaltar sua coragem na manipulação dos tempos rítmicos – há cenas sem falas, pausas imensas, mas tudo sempre preenchido por conteúdos perfeitamente apreensíveis.

Quanto ao elenco, Lucas Gouvêa, Leonardo Corajo, Raquel Rocha e Cris Larin evidenciam grandes recursos expressivos, e um tipo de contracena que só existe quando os atores não apenas sabem exatamente o que estão fazendo no palco, mas também demonstram enorme prazer em representar juntos. A todos, portanto, parabenizo com o mesmo entusiasmo.

Na equipe técnica, Paulo César Medeiros responde por uma iluminação diversificada e expressiva, a mesma expressividade presente nos divertidos e críticos figurinos de Patricia Muniz. Quanto à “paisagem sonora” assinada por Siri, não tenho a menor idéia do que venha a ser isso – seria o equivalente a trilha sonora? Caso seja, é de ótimo nível. No complemento da ficha técnica, merecem ser destacadas as contribuições de Dani Calazans (preparação vocal), Renato Linhares (preparação corporal), Vanessa Andrea (visagismo) e Flavio Nascimento (adereços) – estes últimos, simplesmente maravilhosos.

AMERIKA – Texto, concepção e direção de Joelson Gusson. Com Lucas Gouvêa, Leonardo Corajo, Raquel Rocha e Cris Larin. Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto. Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h.