Manifesto Ciborgue

O corpo se tornou este objeto ameaçador do qual temos a obrigação de cuidar.
Jean Baudrillard

Espetáculo/performance para dois atores é o primeiro trabalho da Trilogia da Matéria, e tem seu título retirado de um dos artigos da filósofa norte-americana Donna Haraway (Manifesto Ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo socialista no final do século XX). Escrito em 1985, no auge dos filmes de ficção cibernética como Exterminador do Futuro e Blade Runner, este artigo teve um impacto imediato sobre toda a comunidade acadêmica mundial, principalmente nos campos da filosofia e antropologia. Nele discute-se o conceito de ciborgue e a possível existência de um corpo cibernético na contemporaneidade.

 

 

 

 

Manifesto Ciborgue fala das possibilidades criadas pelas novas tecnologias para que o sujeito contemporâneo possa transformar o seu próprio corpo; um assunto frequente na mídia em geral e que esconde, atrás da banalidade da simples vaidade, um conteúdo complexo e altamente político.
Este trabalho trata, acima de tudo, da composição e da decomposição do corpo; de quais são seus elementos constituintes; do que há neste corpo que mesmo não tendo surgido dele próprio o possibilita existir; do que sobra dele depois de sua destruição; das próteses que sobrevivem ao orgânico e se transformam em memória do sujeito do qual fez parte; da consciência da degradação da carne e a tentativa desesperada de desativar este mecanismo autodestrutivo e com prazo de validade.
Este é o lugar onde Kafka encontra-se com Michael Jackson.

Apresentações:
2009- Teatro Glaucio Gill

2010- ECM Sérgio Porto

2011- Four Days Festival of Prague.

2012- Sacred Festival no Chelsea Theatre, Londres.

Ficha Técnica
Argumento Original e Direção: Joelson Gusson
Criação: Joelson Gusson, Leonardo Corajo e Lucas Gouvêa
Em Cena: Leonardo Corajo e Lucas Gouvêa
Assistência de Direção: Candice Abreu e Lidia Olinto
Poemas: WJ Solha
Paisagem Sonora: Dragão Voador
Luz: José Geraldo Furtado
Cenografia e Figurinos: Joelson Gusson
Coreografia/Street Dance – Daniel Figueiredo
Coreografia/Tango – Lídio Freitas

 

 

 

 

CRITICAS

Four days Festival of Prague

http://www.divadelni-noviny.cz/4-4-8-12-no-3/

Revista Divadelní Noviny

publicada em 20/11/2011

Autora Marcela Magdová

Tradução Denisa Václavová e Joelson Gusson

Grotesco e elegante, com ritmo modernista tipicamente brasileiro, Manifesto Ciborgue,
apresentado no Archa Theatre, junta português, inglês e tcheco. Especial diversão –
na noite de quarta-feira no Four Days Festival – misturada com gotas de uma reflexão
profunda.

O conteúdoda forma

Joelson Gusson, um dos diretores proeminentes no atual cenário do teatro experimental do Brasil, diz ter sido inspirado pelo ensaio homônimo, escrito pela bióloga e filósofa norte-americana Donna Haraway durante os anos 80 do século passado, onde a identidade do “ciborgue” é descrita como uma ligação entre o humano e a tecnologia. Ciborgue como uma espécie de estágio intermediário, de transição, entre o homem e a mulher, ou entre o artificial e natural. A transformação do corpo humano, seja pela mudança de gênero ou através de intervenções na matéria, é o tema principal desta peça criada para dois performers e um esqueleto.

A peça tem início com a criação de diversas imagens como, em uma referência ao discurso hamletiano, um dos performers dança com um crânio, esvazia os seus sapatos que estão cheios de cinzas, porque “você é pó e ao pó hás de voltar” ou a pequena demonstração de um médico sobre as diferentes possibilidades de implantes corporais e cirurgias plásticas extremamente bem construída e bem humorada. Um ator nu, dançando ao som da música do ícone pop, e também símbolo de cirurgia plástica, Michael Jackson, não pode ser pensado a não ser pelo seu lado ridículo.

Aos poucos, porém, revela-se uma atmosfera muito mais complexa e pesada. Um dos atores dirige-se ao público e pergunta: Você sabia que as unhas de um cadáver continuam a crescer? Lutamos para melhorar a aparência, mas para quê? Depois de tudo isso só resta o nada? Se há um Deus, como pode tudo isso acontecer? Insistentemente toca um telefone vermelho, o que, aliás, é o único elemento de cor no cenário inteiramente branco. No outro lado da linha ninguém responde. Poderia ser Deus… ou a Morte?

A mutação sexual mostra o ator – com grande habilidade – travestido de mulher em uma longa capa de chuva (por dentro desta revela-se um maiô cor da pele com enchimentos e uma peruca entre as pernas), referindo-se ao pós-silicone mal sucedidos. Seu rosto com aparência masculina recebe uma camada de massa modelada como se fosse uma operação plástica. Mas a massa está sujeita à deterioração. O rosto se decompõe, a boca estica, criando um sorriso alongado, monstruosamente engraçado, que lembra a famosa pintura de Edvard Munch, o Grito.

As piadas originais oscilam, em uma linha muito tênue, entre a ironia, de um lado, e o pathos e o pessimismo do outro. Felizmente, o equilíbrio entre os lados é tão perfeitamente construído que não nos incomoda a possível superioridade de qualquer um deles.

A última cena acaba por enredar totalmente os espectadores. Durante toda a peça os dois atores lidam com o público como se quisesse “apenas” entretê-lo, para, ao final, tocar profundamente na ferida, embora ainda com uma risada discreta. Em primeiro plano, o ator no papel do médico expõe as pequenas coisas que possui, como se estas o constituíssem enquanto indivíduo: um isqueiro, cigarros, dinheiro e tudo mais do que há de inútil… Ao fundo o paciente com um porta-soro preso à sua mão, deita-se na mesa de dissecação à espera de sua morte. Ele abraça um esqueleto, que, com uma jaqueta preta estendida sobre o crânio, não parece nada diferente do que a própria Morte.

Este trocadilho muito bem construído usando a linguagem teatral moderna deixa-nos uma conclusão trágica, majestosamente acompanhada por uma pitada de auto-ironia. As tentativas de reconstrução e da desconstrução do corpo, a desilusão e a degeneração
definitiva.

Este espetáculo não é totalmente novo (2007/2008), e, portanto, é necessário apreciar também os atores (Leonardo Corajo e Lucas Gouvêa), que, com tanta facilidade, diversão e vigor ainda dominam completamente o palco.

Opinião Fringe

 

Manifesto Ciborgue

Gerson Paulo de Andrade
31.03.2008


Conforme o diretor Joelson Gusson o espetáculo Manifesto Ciborgue é apenas apoiado na tese de Donna Haraway, não pretende defendê-la. Em cena está a reflexão de uma possível transumanidade. Vivemos num mundo, onde o corpo pode ser absolutamente alterado, onde o humano assume dimensões inimagináveis. A metamorfose faz parte do cotidiano, no uso de artifícios variados que mexem com padrões que vão além da estética ou da sobrevivência.
No discurso datilografado à academia, no esboço do macaco origem da evolução, nas referências musicais e visuais, assim Kafka encontra Michael Jackson, cuja evidente metamorfose espanta a todos. O telefone vermelho que toca, urgência de um alerta cuja imagem remete ao telefone de Batman. E que nos faz lembrar dos nossos heróis e seus super poderes, de alguém que está acima do humano, seres mutantes que invadiram até a teledramaturgia. O próprio processo de degradação do corpo e a luta obstinada pelo prolongamento da juventude ao uso de próteses, da mais simples como uma dentadura, uma lente de contato a membros que garantem mobilidade. Desta interferência externa, da tecnologia que nos complementa e escraviza que a Cia. Dragão Voador trata de forma simples e que provoca a reflexão acerca de que a que preço o homem desenvolve tecnologias para melhorar a vida e quais serão as conseqüências de brincar de Deus? Além da pertinente proposta do tema a pesquisa cênica com dois atores cativou com humor e uso de linguagens diversas.

Cenacríticacontemporânea

 

Eu sou um ciborgue

Rodrigo Gondin 10/11/2007


Será que já não estamos na transumanidade? Será que o corpo humano como natureza pura, intocável, já não é uma máquina de escrever na era digital? No mundo, onde o corpo pode ser absolutamente alterado, onde está a questão de autoria e identidade do humano? Essa parece-me uma questão urgente no espetáculo “Manifesto Ciborgue” que o grupo Dragão Voador Teatro Contemporâneo apresentou no Teatro da Caixa Cultural do dia 11 de outubro de 2007. Tão urgente como o telefone vermelho que toca na peça. Imagem que me faz lembrar o telefone da cidade de Gothan City. Como se o Batman (nossos heróis sempre são metahumanos) pudesse nos salvar ! Esse manifesto aparece como um agrupamento de projetos; idéias que, ao surgirem, alteram todo o contexto. O nu com uma placa do rosto do Michael Jackson sobre sua própria face. O que faz com que meu cérebro veja o cantor (Michael) no corpo do ator. Construímos a todo instante o sentido para as coisas. O tempo todo, mudamos e associamos novas possibilidades de enxergar o mundo. Mudamos e moldamos no corpo. Assim foi a peça. Cenas desconectadas. A decrepitude é uma questão forte na peça. Corpos imóveis, sem desejo, sem escolhas…com.puta.dor. Vejam que paradoxo curioso: o Homem desenvolve tecnologias para poder melhorar sua performance na vida e todos esses “desenvolvimentos” decrepitam nossa existência. O homem já é um super-ciborgue. Agrega coisas no seu corpo, faz mudanças na sua estrutura física, resolve problemas matemáticos em segundos, puxa caminhões com os dentes, mata milhares de pessoas… E isso serve pra quase nada…Uma massa de modelar solitária. Agora que Deus morreu, quem vai nos moldar?

Cenacríticacontemporânea

 

Cenacríticacontemporânea

Eu sou um ciborgue

Rodrigo Gondin 10/11/2007


Será que já não estamos na transumanidade? Será que o corpo humano como natureza pura, intocável, já não é uma máquina de escrever na era digital? No mundo, onde o corpo pode ser absolutamente alterado, onde está a questão de autoria e identidade do humano? Essa parece-me uma questão urgente no espetáculo “Manifesto Ciborgue” que o grupo Dragão Voador Teatro Contemporâneo apresentou no Teatro da Caixa Cultural do dia 11 de outubro de 2007. Tão urgente como o telefone vermelho que toca na peça. Imagem que me faz lembrar o telefone da cidade de Gothan City. Como se o Batman (nossos heróis sempre são metahumanos) pudesse nos salvar ! Esse manifesto aparece como um agrupamento de projetos; idéias que, ao surgirem, alteram todo o contexto. O nu com uma placa do rosto do Michael Jackson sobre sua própria face. O que faz com que meu cérebro veja o cantor (Michael) no corpo do ator. Construímos a todo instante o sentido para as coisas. O tempo todo, mudamos e associamos novas possibilidades de enxergar o mundo. Mudamos e moldamos no corpo. Assim foi a peça. Cenas desconectadas. A decrepitude é uma questão forte na peça. Corpos imóveis, sem desejo, sem escolhas…com.puta.dor. Vejam que paradoxo curioso: o Homem desenvolve tecnologias para poder melhorar sua performance na vida e todos esses “desenvolvimentos” decrepitam nossa existência. O homem já é um super-ciborgue. Agrega coisas no seu corpo, faz mudanças na sua estrutura física, resolve problemas matemáticos em segundos, puxa caminhões com os dentes, mata milhares de pessoas… E isso serve pra quase nada…Uma massa de modelar solitária. Agora que Deus morreu, quem vai nos moldar?

Questão de crítica

Questão de crítica http://www.questaodecritica.com.br

Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais

Identidade em questão


Publicado em: 27/11/2008

Autor: Dinah Cesar

A particularidade do espetáculo Manifesto ciborgue, dirigido por Joelson Gusson, parece ser a de ser constituído por uma tensão sutil entre elementos mais propriamente formais, nos quais aparecem um teor crítico, e instâncias subjetivas que desmontam as imposições dessa crítica. A meu ver, a sensação para o espectador é a de que não existe um posicionamento definido, surgindo condições de possibilidade de quebrar com sentidos pré-fixados.
O espetáculo parte de questões de estudos da cultura inspirados em A Cyborg Manifest da professora da Universidade da Califórnia, Donna Haraway. O referido manifesto propõe idéias que desmontam nossas noções totalitárias de identidade por meio da perspectiva da imbricação entre tecnologia e o corpo humano, ressaltando que este se constitui de modo contraditório e parcial. Esta transformação de perspectiva,ou seja, a percepção da fragilidade de nossas noções identitárias e o agravamento da compreensão de que somos uma construção cultural, transforma-se em materialidade sutil no espetáculo.
A meu ver, o trabalho dos atores é o maior responsável por dar a ver as possíveis ambigüidades que a direção sugere. Todas as imagens de dispositivos tecnológicos integrados ao corpo humano, de cirurgias plásticas, de tratamento, ou de exercícios físicos que almejam a preservação da juventude estão problematizadas por uma cena elaborada por meio de alusões e pelo esmaecimento do lugar do texto. O registro de atuação é acentuado por uma procura de neutralidade e uma fala desdramatizada. O que resulta desse movimento é o aparecimento de instâncias delicadas que não pretendem acertar nenhum alvo comunicativo. Neste contexto, a beleza física e a sensualidade de Leonardo Corajo parece ser elemento constitutivo de uma narrativa fugidia que não se impõe à força. Um belo momento de Corajo é sua constituição caricatural do feminino que está problematizada por sua voz masculina e suave ao mesmo tempo, quando fala o poema de WJ Solha. Lucas Gouvêa expõe ascetismo e certa objetividade, porém, não deixa de participar de uma sensualidade que permeia os corpos dos dois atores. A cenografia, também ascética, congrega as imagens de uma sala de hospital com uma galeria de arte criando um ambiente que está pronto a desprezar qualquer idéia de sensação corporal. Se o ascetismo e a brancura tendem para o triunfo do espírito sobre o sofrimento proveniente de nossos corpos, as composições de fotografias de partes de corpos humanos com alguma interferência (próteses, musculaturas proeminentes, piercings) empregam a instância cotidiana. Esses elementos tanto podem provocar uma apreensão despreocupada e que diverte, quanto uma reflexão identitária. Acredito que estaria justamente aqui o trunfo do espetáculo, ou seja, pode ser apreendido por meio do humor aparentemente simples.
O problema que percebo na encenação é que ela deveria acontecer em um outro tipo de espaço, no qual a platéia pudesse ter algum recuo. Um palco pequeno com proximidade da platéia dificulta a visualidade que oferece a cena. Talvez possamos pensar, neste caso, que se trate de uma questão que concerne à curadoria e à política do teatro carioca. O espetáculo Manifesto ciborgue materializa elementos que colaboram para uma noção de partilha da experiência de arte e, justamente por essa proposta, merecia ser visto em um circuito mais abrangente.